Rio -  Adriane Galisteu é alta, magra e linda. Mas, acredite, até ela se irrita na hora decomprar roupas. “Aqui no Brasil tem que passar pelo provador, senão, vai acabar tendo problema em casa”, diz a apresentadora no documentário ‘Fora do Figurino — As Medidas do Jeitinho Brasileiro’, que entra em cartaz sexta-feira e mostra a saga de pessoas de Norte a Sul do país em busca de peças que caiam bem em seu manequim.
Apresentadora relembra casamento com Justus | Foto: Ag. News
Adriane Galisteu ressalta a necessidade de ter que passar pelo provador | Foto: Ag. News
Grande parte da população, seja homem ou mulher, compartilha da mesma dor de cabeça. Comprar roupas por aqui é uma missão hercúlea. Cada fabricante segue um padrão de tamanho, que, em sua maioria, baseia-se em tabelas americanas ou europeias, ignorando o ‘corpo violão’ das brasileiras. Mas a saga não termina aí: após as compras, ainda vêm os ajustes.
“Eu sinto que as calças são feitas para mulheres altas. As mangas também são sempre muito longas”, desabafa a atriz Regina Duarte, que já se acostumou a mandar suas roupas novas para reparo. A apresentadora Ana Maria Braga concorda com a atriz e completa: “Sempre corto uns 20 centímetros (das calças)”.
Inicialmente, a ideia do diretor Paulo Pélico era falar sobre o famoso ‘jeitinho brasileiro’. Um dia, cansado de sofrer para achar paletós e camisas que o vestissem bem, ele encontrou a história para o seu filme. “Pesquisando, descobri que isso acontece por causa da ausência de um estudo dos corpos brasileiros. Cada fabricante dá o seu ‘jeitinho’ e usa uma tabela de medidas diferente”, explica Paulo.
A maioria das brasileiras, conhecidas pelo bumbum avantajado, sofre para achar a calça ideal. “O problema está relacionado com a profundidade da pence. Aqui, as pessoas ignoram isso, mas é a pence que dá forma e volume à calça”, explica a modelista Sonia Duarte, autora do livro ‘Tabela de Medidas’.
“É mais fácil comprar roupa na França, na Itália, nos EUA do que aqui. Cai melhor e é mais rápido”, opina a atriz Beatriz Segall. Para a consultora de moda Renata Abranchs, a ausência de uma modelagem padronizada gera consequências positivas e negativas. “As empresas adotam o seu próprio padrão. Isso gera uma fidelização da marca. Mas também existe um grande desperdício de material e a insegurança do consumidor na hora da compra”, avalia.
Depois de tanta confusão causada por um mar de modelagens, que enlouquecem consumidores, lojistas e fabricantes, o Senai Cetiqt resolveu por a mão na massa e desenvolver tabelas para todo o Brasil. O trabalho, que começou efetivamente em 2005, já exigiu R$ 5 milhões em investimentos.
Foto: Divulgação
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“Tínhamos duas questões: estruturar um curso de modelagem e estudar as medidas corpóreas da população brasileira. Nossa previsão é que no meio deste ano as tabelas da região Sudeste estejam prontas. Já as tabelas do resto do país estão previstas para o segundo semestre de 2014”, revela o gerente de inovações, estudos e pesquisas da empresa, Flávio Sabrá.
Mas há quem acredite que uma padronização geral não vá ser eficaz. “As grifes já têm suas medidas próprias e, de acordo com o público-alvo, o tamanho de um determinado manequim é diferente”, analisa Regina Matina Vidal, diretora da marca mineira DTA, que fabrica cerca de 150 mil calças jeans por ano.
Apesar do foco no vestuário, Pélico abre o leque e questiona o tamanho de móveis e até de camisinhas. “De cada dez clientes, em quatro a camisinha não serve”, revela o travesti Mirela Becker no filme, referindo-se a preservativos distribuídos gratuitamente pelo Ministério Público, peça fundamental do seu trabalho.
INSATISFAÇÃO GENERALIZADA
“Passo a tesoura na barra das minhas calças jeans e deixo desfiar”, Regina Duarte.
“Quando eu pego uma calça, eu vejo que ela é do meu tamanho, mas só que não cabe em mim, não fecha”, Susi Saterê, índia do Amazonas.
“A média do ‘joga fora’ é de 20 centímetros”, costureira Magda dos Santos, a respeito do desperdício no setor da confecção.
“Aproveito minhas viagens para o exterior e aí sim consigo fazer as minhas compras de roupa. Lá encontro peças com mais opções de altura de perna e comprimento de manga. Pena que no Brasil essas peças não tenham preços acessíveis a toda a população”, Ana Maria Braga.
“Odeio experimentar roupas”, Adriane Galisteu.
“Não tem uma vez que eu entre numa loja e tenha o meu número. Por exemplo, terno, esquece. Camisa social, nunca”, Odilon Wagner.
“Sempre tive dificuldade de encontrar camisas e paletós. O colarinho e a manga nunca dão certo, já sai da loja para a costureira”, Paulo Pélico, diretor de ‘Fora do Figurino — As Medidas do Jeitinho Brasileiro’.
“É lamentável que a gente não tenha um levantamento antropométrico no Brasil porque nós temos enormes diferenças na população. Essa falta cria todo o tipo de problema para a indústria”, ministro do Desenvolvimento Miguel Jorge (2007-2010), sobre a falta que faz uma tabela de medidas brasileira.