A omnipresença dos ricos
Os 2,5 mil milhões de pessoas que sobrevivem com menos de dois dólares por dia são ignoradas por serem pobres e por não serem caucasianas nem anglófonas.
Há 40 anos, o cidadão típico do mundo ocidental lia o jornal local. Sabia quem festejava 50 anos de casamento e em que histórias se envolviam políticos e empresários locais. Há 20 anos, o cidadão típico lia o jornal nacional, que cobria essencialmente a elite nacional. Hoje em dia, o cidadão típico obtém notícias ou ‘feeds' do Twitter de diversos sites que cobrem a elite global, de Lady Gaga a Barack Obama.
Esta mudança é conhecida, mas poucos se dão conta de uma importante consequência: os ricos são a notícia. Grande parte das notícias sobre os ricos é produzida por um punhado de fontes em língua inglesa. As agências de notícias publicam uma história, um jornal fica com a cacha ou a BBC.com publica uma manchete, e em poucos segundos a "notícia" é replicada em sites, televisões e jornais impressos de Varsóvia a Waikiki. Demitem-se, assim, de contratar repórteres.
Desta forma, as notícias ficam reduzidas a uma pequena elite global de atletas, artistas, realeza e políticos. Foi o que vi na minha primeira visita à Índia, na semana passada. Os artigos da secção ‘Entertainment' do Hindustan Times revelavam total obsessão por Hollywood e ignoravam olimpicamente a sua meca do cinema, Bollywood. Mais concretamente, os maus-tratos que o realizador infligiu à actriz Keira Knightley durante as filmagens de "Orgulho e Preconceito". Cito o Hindustan Times, que cita o site Stuff.co.nz, que cita a actriz numa entrevista dada à revista francesa Grazia: "Disse-me aos berros: ‘Cala a boca e pára de fazer beicinho!'". Resumindo, as mesmas notícias sobre as mesmas celebridades multiplicam-se que nem vírus.
As celebridades são esmagadoramente anglófonas. Aliás, só se replicam histórias em inglês e as pessoas que escrevem em inglês preferem celebridades que falam a mesma língua. A revista Forbes elegeu as 100 "Celebridades Mais Poderosas do Mundo" e a única não anglófona é Cristiano Ronaldo, na 43ª posição. Aparentemente, só os ricos têm direito à mediatização.
Esta focalização diária nos ricos tem duas consequências. Primeiro, essas pessoas passam a fazer parte do nosso grupo ideal de amigos, o que nos leva a odiar os nossos rendimentos. É menos nocivo ler notícias sobre um ilustre desconhecido do que sobre os 6,5 mil milhões de euros arrecadados por Ivan Glasenberg, CEO da Glencore. Segundo, esquecemos os pobres. Estão ao nosso lado, mas não aparecem nos media. Por exemplo, existe um novo tratamento que evita a propagação do HIV/Sida, mas os países ricos continuam relutantes em financiá-lo. Já se escreveram uns quantos artigos em edições elitistas, mas o tema nunca teve a atenção que merece no Twitter ou noutras redes sociais.
Nos tempos que correm, nem os brancos pobres anglófonos conseguem tempo de antena. Na melhor das hipóteses, são retratados como um grupo sem rosto, caso dos jovens manifestantes espanhóis, dos americanos que vivem em tendas depois de terem perdido as suas casas na sequência da crise imobiliária nos EUA, ou dos órfãos africanos com Sida. Os ricos são retratados enquanto indivíduos e, como tal, são mais vívidos - mesmo quando são retratados como "gatos gordos". No fundo, tornámo-nos nos media de que um mundo desigual precisa.
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